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quarta-feira, 6 de março de 2013

Como a Netflix sabe o que você quer assistir antes de você



Texto de Chris Berube para o The Globe and Mail. O texto fala sobre a Netflix canadense, mas os mesmos princípios valem para a nossa versão.
A tradução (absolutamente amadora) é minha.


Jordan Canning é uma das mais influentes fabricadoras de tendências do Canadá, mesmo que a maioria do 1,5 milhão de pessoas que se baseiam em seus julgamentos e conselhos todo mês nunca tenham ouvido falar dela.

Canning passa horas e horas assistindo conteúdo da Netflix que será disponibilizado aos assinantes, meticulosamente classificando filmes e séries de televisão e preenchendo planilhas que determinam qual programação será oferecida a cada usuário da Netflix quando eles logam no serviço.

Ela é um dos quatro taggers canadenses - experts em conteúdo que são o cérebro por trás dos algoritmos intrincados que predizem o que os espectadores do país têm mais chances de gostar de assistir baseados em suas escolhas anteriores.

Em um mundo digital dominado por bancos de dados, ela está usando sua habilidade analítica humana para levar os usuários a devorarem mais conteúdo. E enquanto eles assistem, deixam para trás um rastro digital de seus hábitos que espectadores de TV convencional não deixam.

"Esse é o melhor show de todos", disse Canning, que faz filmes quando não os está assistindo para a companhia californiana. "Todo mundo quer um trabalho como o meu quando ouvem sobre o que eu faço."

E enquanto suas decisões são o núcleo da maioria do que é assistido pelos canadenses com Netflix - a empresa estima que 70 por cento das escolhas que os usuários fazem ao assistir é baseada no que é sugerido a eles - o serviço está agora usando a informação para melhor entender o que os espectadores querem e decidir qual conteúdo irá produzir baseado nisso.

A aposta é grande: se a Netflix conseguir usar seus algoritmos para prever o que será popular entre os assinantes, ela poderá assumir uma parte maior do mercado de companhias de TV convencionais, que são hegemônicas há anos. A companhia acredita que tem a fórmula secreta que faz as grandes redes de televisão se preocuparem e se perguntarem se ainda têm a vanguarda na luta por assinantes. Sua segunda série original, House of Cards, um drama sobre um político vivido pelo ator Kevin Spacey, recentemente foi lançada com grande aprovação, e a série Hemlock Grove, filmada em Toronto, será disponibilizada no mês que vem.

"Quando ouvimos falar de House of Cards, nós imediatamente começamos a pesquisar os dados", disse Ted Sarandos, chefe de conteúdo da Netflix, explicando como a companhia decidiu comprar os direitos exclusivos da série.

A Netflix estudou quantas pessoas assistiam a filmes estrelados por Kevin Spacey, se eles tendiam a segui-lo para outros filmes, e em qual tipo de papel trazia ele tinha mais espectadores. Os dados mostraram que os mesmos usuários que tendem a gostar do ator em papéis sérios gostam de assistir a dramas políticos. Então a companhia fez um cheque de 100 milhões para produzir a primeira temporada.

Dados estão no coração da Netflix desde quando foi fundada em 1997 como um serviço de entrega de DVDs por correio. Nos seus primeiros dias, funcionários eram enviados a visitar usuários em casa para anotar como o serviço era usado. O algoritmo "Cinematch" foi desenvolvido em 2000. A Netflix descobriu que se recomendasse filmes baseados no que os assinantes estavam alugando, era mais provável que eles devolvessem os discos e continuassem a usar o serviço.

"Eles têm 14 anos de dados de consumidores agora", disse Gina Keating, autora de "Netflixed: A batalha épica pelos olhos dos EUA". "Há muito pouca emoção entra nas decisões que eles tomam."

Isso é certamente verdade para Canning enquanto ela preenche a planilha de Madagascar 3: Os procurados. A planilha permite a ela escolher entre categorias pré configuradas - se há nudez, se algum dos personagens é gay, se tem final feliz, se há violência constante, se é hilariante ou meramente engraçada - mas é essencial ser específica sempre que possível.

"Algumas coisas são fáceis de saber logo de cara - eu sei que não vai haver sexo ou conteúdo gay em Madagascar 3", ela disse. "Sei que posso escolher 'amigável para a família' e 'estimulante'".

Sem suas tags, cada assinante teria a mesma tela de boas-vindas quando logassem. Mas cada usuário tem um conjunto único de filmes e séries baseados no que assistiram, e o sistema gera categorias específicas para cada conta. Algumas são tão detalhadas, como "filmes visualmente impressionantes sobre pais e filhos" e "filmes emocionalmente fortes protagonizados por uma protagonista mulher", que parecem uma piada.

Mas não há nada de engraçado na competição por assinantes. Consumidores da América do Norte estão constantemente procurando meios de diminuir seus gastos com televisão ao usar serviços como Netflix, mas frequentemente abandonam a ideia pela falta de programação adequada aos seus gostos.

Com a ajuda dos taggers da companhia e um pouco de matemática complicada, isso pode mudar rapidamente, enquanto a Netflix procura produzir mais conteúdo mainstream. Mas isso não quer dizer que a companhia irá atender a todos os nichos que seus computadores indiquem - más notícias para quem esperava por uma comédia-romântica-retrô-de-viagem-no-tempo-protagonizada-por-animal para esquentar um encontro.

"Esse interesse em alcançar nichos de audiência provavelmente não irá acabar atendendo a todos os micro-sub-gêneros", disse Sarandos. "A Netflix não está pronta para ir tão longe."

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