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domingo, 8 de junho de 2014

Como a Netflix está mudando nossos cérebros - e porque isso pode não ser tão bom


Traduzido da Forbes:

Com a segunda temporada de Orange is the new Black chegando ao catálogo, eu me deparei com uma mudança profunda no cálculo psicológico do entretenimento. A Netflix mudou o jogo, e não estou dizendo apenas em como os programas são servidos a olhos famintos. Eu digo o jogo por trás dos nossos olhos - a dinâmica do limite e das gratificações adiadas que nossos cérebros têm sido treinados há décadas para obedecer.

Se você ainda não assistiu ao programa ou a algum outro programa original da Netflix (como House of Cards), deixe-me explicar resumidamente. A Netflix produz uma temporada completa de uma série e então - contrariando todas as convenções das tábuas sagradas da televisão - libera a temporada toda... de uma vez. Quando a segunda temporada de Orange is the new Black foi publicada na sexta feira, todos os episódios estavam lá, do começo ao fim.


Centenas de milhares de fãs esperando pela nova temporada puderam então assistir a todos os episódios (o chamado binge watching) - e posso apostar de que uma grande porcentagem desses fãs, a essa altura, já assistiram tudo pela segunda vez e estão se preparando para a terceira.

Antes da Netflix introduzir esse formato, ainda estávamos no modo de trechos de entretenimento semanais. A HBO há muito tempo consolidou o domingo à noite como horário para receber as séries de maior qualidade, sem intervalos comerciais, tanto Os Sopranos, Six Feet Under, Sex and the City e mais recentemente Game of Thrones (para nomear alguns dos seriados lendários). Todas as grandes redes de TV oferecem algo similar, mas apenas os canais premium podem oferecer entretenimento de uma hora sem intervalos comerciais.

Para todos esses programas, nós todos éramos (e ainda somos) forçados por esse formato a exercitar a gratificação adiada. Mesmo que você baixe episódios piratas online, você ainda está obrigado, em grande parte, restrito a assistir apenas aos programas que já foram ao ar. Isso é porque a HBO e as outras redes estão ocupadas gravando enquanto as temporadas estão no ar? Não. Com raras exceções, as temporadas desses programas já foram gravadas do início ao fim. A limitação imposta a todos os espectadores é exatamente isso - uma imposição.

Pense por um momento em termos de um experimento com ratos de laboratório. Se os pesquisadores querem testar maneiras de aumentar a habilidade dos ratos em adiar gratificações, eles colocariam os animais em algum tipo de laboratório de observação e criariam algum sistema de desincentivo como cobrança por uma comida particularmente agradável. Como todos os ratos adoram uma boa comida, eles começam com habilidade zero de resistir ao impulso de apertar o botão e receber a guloseima que está diante de seus olhos. Mas, com tempo, e com a combinação correta de desincentivos (como vagarosamente convencer os ratos que quanto mais eles esperarem para apertar, mais comida vão receber), até ratos famintos podem se treinados para adiar a gratificação.

De certa forma, isso é o que o modelo de entretenimento em domingo à noite faz pelos humanos: gratificação adiada ligada à qualidade. Nós esperamos para assistir aos melhores programas semanalmente porque fomos levados a acreditar que vale a pena esperar por eles. Uma hora de entretenimento bem escrito, bem atuado, sem comerciais, é nosso prêmio semanal, e somos treinados a segurar nossos apetites até esse momento.

Para fins de argumento, vou supor que o modelo de gratificação atrasada é bom para humanos por algumas razões. Primeiro, ele provê algo para esperarmos em todas as semanas, e assim coloca um pouco mais de luz em nosso dias enquanto esperamos pelo programa no domingo. A espera dá um boost neuroquímico, uma espécie de antidepressivo natural.

Nosso desejo contínuo por programas agendados também nos mantém envolvidos - e nos mantém conversando com outras pessoas sobre os seriados. Como um catalisador de interações sociais, a dose semanal nos mantém ligados uns aos outros. Nós somos capturados como uma comunidade pelas narrativas e eu acredito que um argumento sólido poderia afirmar que, mesmo que as narrativas sejam ficcionais, nós nos alimentamos da energia coletiva sabendo que mais milhares de pessoas estão pensando nas mesmas histórias.

E então também temos o argumento mais óbvio de que não passamos horas conectados como robôs assistindo a cada um dos episódios da temporada (mas nisso eu concordo que, ficando na frente da TV várias horas de uma vez ou uma vez por semana, ainda estamos gastando elas na frente da tela).

Então o que acontece quando a Netflix libera uma temporada inteira de um programa tão bom quanto os da TV paga? É como se os desincentivos que reforçam a gratificação atrasada em nossos ratos de laboratório hipotéticos de repente desaparecessem. Os limites são destruídos. A guloseima está logo ali para pegar, em uma quantidade que quase nenhum rato consegue resistir.

Vou ser claro: eu amo Orange is the New Black, e também sou muito fã de House of Cards. E para ser franco, estou tendo dificuldades em conter meu desejo de assistir a todos os episódios das desventuras de Piper. É ai que fico dividido. Estou apenas reagindo a meus anos de treinamento para esperar minha recompensa semanal, ou há algo perdido no binge watching?

É muito intrigante, se não perturbador, como questão psicológica. Então vamos abrir o assunto para discussão. Assistir tudo de uma vez é uma libertação dos anos de gratificação adiada, ou estamos desistindo de algo valioso ao dispensar o sistema de restrições que dominou a TV até recentemente? Ter tudo na sua frente é o melhor que podia acontecer ou é muito bom pra ser verdade?

O autor, David DiSalvo, é autor de vários livros sobre divulgação científica ligando ciência, tecnologia e cultura.

26 comentários :

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    1. Obrigado, Sergio!

      Muita gente não gosta da escola behaviorista (que é a que o estudioso do texto segue), mas o texto é realmente interessante.

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  2. eu não assisto tudo de uma vez pois é muito cansativo, tento assistir um por dia no máximo dois e como tenho outras coisas pra fazer tem dia que não assisto, ou até semanas. eu gosto de ter calma pois sei que a proxima temporada é só pra ano que vem. até livro eu leio devagar pra adiar ao máximo o fim. matéria muito interessante.

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    1. Hahaha, eu também sou assim. Só a segunda temporada de House of Cards, vi em uma semana.

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  3. na boa, é coisa de maluco assistir tudo de uma vez. assistir um ou dois em um dia, pular um ou dois dias, assistir de novo, legal. assiste rápido e é legal.

    tudo de uma vez ??? pra quê ??? pra pagar de gatão entre os nerds porque já assistiu tudo ???

    porque quem faz isso não tem alguém para contar além dos pais e as pessoas que "conhece" pela internet.

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  4. Na minha opinião o que o Netflix avançou tanto para nos entregar é, ironicamente, o mesmo formato que temos com os livros.

    Mesmos os livros de vá lá, Harry Potter, uma série que eu contava os dias para sair o próximo eu não"lia tudo de uma vez", mas sim aos poucos, um capitulo aqui, dois quando fica mais interessante e assim por diante.

    Acho essa característica uma "vantagem comercial" para o Netflix, que entrega a temporada toda de uma vez, assim todo mundo assiste no seu próprio tempo

    Rafael

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    1. É verdade, eu estou assim ansioso com o livro novo de Guerra dos Tronos :)

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  5. Eu me pergunto qual é o problema disto. Qual o problema de ter opções?
    Pense na seguinte hipótese: e se eu trabalho a semana toda e só tenho tempo pra respirar no domingo, e nesse dia eu preciso sair com a minha família ou fazer coisas melhores que ficar em frente a televisão? Se eu receber, digamos, um feriado estendido ou férias nesse período em que uma temporada inteira é lançada, o que há de mal em assistir tudo ao invés de sofrer semanalmente?

    O Netflix removeu os limites da programação que estamos acostumados e nos deu algo excelente: opção. Quem impõe os seus próprios limites é você. Quer assistir tudo hoje? Ótimo. Dois por dia? Ok. De semana em semana como uma série "normal"? Seja feita a sua vontade.

    Também temos de entender que o Netflix não é um canal de televisão. O Netflix (em parte) não precisa se preocupar com taxas de audiência ou aceitação de uma série em um bloco X. O Netflix simplesmente é um modelo "aqui e agora". Você tem a sua série ali, disponível, só esperando por você; a escolha de assistir agora ou depois é sua.

    Existem pessoas com horários e limites diferentes dos outros, e ter opção é sempre a melhor escolha. Uns preferem comer a guloseima inteira agora, e outros preferem guardar um pouco pra aproveitar depois.

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    1. Yagami, ontem fiquei pensando no que a Netflix está fazendo com o "Um drink no inferno". Eu acabo gostando de ter sempre um determinado horário na semana pra assistir aquela série.

      Eu acredito que a Netflix talvez reveja esse modelo no futuro, porque acaba tirando muito do buzz em redes sociais (você tem o lançamento da série como na tv normal, mas não tem uma data de fechamento pra fazer mais publicidade).

      Mas enfim, concordo com você, liberdade é a melhor escolha.

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    2. A diferença é que "Um drink no inferno" não é uma produção totalmente independente da Netflix, faz parte de uma parceria é ela tbm e lançada na TV.

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    3. Eu sei, só estava citando como exemplo de formato diferente :)

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    4. que dia sempre sai um novo episódio de Um drink no inferno? Nunca sei.

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    5. Luan, sai em quarta feira.
      Quarta passada não teve provavelmente por causa de algum feriado nos EUA

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  6. Acho que isso faz parte do movimento natural da sociedade, os formatos velhos acabam, novos formatos surgem, as gratificações mudam também, nossos valores são diferentes do que são para as crianças, e se existe realmente uma tendência para que a mídia não ofereça mais gratificação adiada que estamos acostumados, é porque devemos prestar atenção na "autoreciclagem" da vida, aguçar os sentidos e conviver mais com as coisas novas do mundo; Aí, sim, identificar e absorver na própria vida as novos sistemas de gratificação adiada que a sociedade cria. Adaptar-se sempre, pois a única coisa certa é que tudo muda.

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  7. Acho que tanto um formato quanto o outro não seja ser prejudicial a ninguém, cada um tem seu ritmo e o formato da Netflix permite que você monte o seu. Porém algo a acrescentar é que mesmo assim, na minha opinião o formato semanal dos canais fechados é melhor no sentido de que o tempo de espera para a próxima temporada diminui. É frustrante assistir rapidamente todos os episódios rapidamente pois você provavelmente vai ter que esperar mais um ano para uma nova temporada o que pode chatear um pouco, enquanto semanalmente você vai graduando até que quando acabar a temporada atual, faltará um pouco tempo para a seguinte.

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  8. Esse autor parou no tempo? Já existia muito antes da Netflix um aparelhinho DIGITAL (Tivo) justamente pra quem prefere "binge watching" ou não tem tempo para ver nos horários convencionais poder gravar os programas que passam toda semana e, se quiser, assistir tudo de uma vez só. Diversas TVs pagas oferecem essa funcionalidade hoje em dia.

    Antes disso tinha o bom e velho analógico VCR. Inventado na década de 50 e popularizado nos idos de 70 e 80. Tudo bem que só depois de um tempo adotou um timer e pudemos programar gravações. Mesmo assim lembro bem de deixar gravando desenhos animados enquanto eu estava na escola e vendo quase 12 horas seguidas no fim de semana.

    Esse cara parou no tempo, o que ele escreve está COMPLETAMENTE fora da realidade e se baseia em conceitos do século RETRASADO. Só olhar os dois últimos parágrafos para entender o que se passa na cabeça do indivíduo. Ele "luta com ele mesmo" para "resistir ao desejo" de ver tudo de uma vez. Melhor assistir tudo e depois levado pela culpa, se autoflagelar num canto escuro.

    É o cúmulo da falta de live arbítrio. Quer dizer que se a sociedade convenciona uma coisa isso está gravado em pedra para sempre? Se uma coisa é nova ou quebra paradigmas eu tenho que afastar porque novo = ruim?

    Fora que ele acha que os EUA são o centro do universo. No BraZil quase sempre esperávamos até ANOS para que uma série chegasse aqui e mesmo assim com sistema de distribuição de episódios diferente. Lembram do LOST, que a Globo exibia um episódio por dia, o que fez a série durar três ou quatro semanas ao invés de seis meses? São realidades diferentes.

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    1. Anônimo, a porcentagem das pessoas que gravam os episódios para assistir tudo de uma vez é desprezível. Ele está falando dos EUA, mas a mesma realidade óbvia aparece pra qualquer um que abra o twitter no domingo à noite. Grande parte da minha timeline está comentando o último episódio de GoT. O último, não os anteriores.

      Da mesma forma existem os episódios diários das novelas. O princípio é o mesmo, só é mais rápido. Você poderia argumentar que esperar por uma temporada pode ter o mesmo efeito, mas como o tempo é muito mais longo, a expectativa só cresce de verdade quando a estreia se aproxima.

      Aparentemente você não leu o texto inteiro, também. Ele não decreta em tábuas de pedra, só questiona - dando argumentos, alguns bons, outros talvez nem tanto.

      [ ]'s

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    2. André, releia então o texto porque acho que você pulou as partes em que o autor presume que somos FORÇADOS e OBRIGADOS a esse formato, sem escolhas. O autor em com sua teoria, em determinado momento tenta substituir o sistema de recompensas por sistema de culpa por ter visto logo (!?!?!?!)

      A escolha para ele, tira todo o "encanto" de ser um cãozinho de Pavlov que saliva ao ouvir a sineta tocar anunciando o episódio semanal ou diário. O autor afirma SIM que existe um padrão e falha miseravelmente em reconhecer que muito antes da Netflix muita gente já fazia binge watching como falei, de diversas outraqs formas, fugindo desse "padrão". E comentar, seja o último episódio ou a última temporada, tanto faz como tanto fez.

      Em nenhum momento foi quantificado o número de horas em frente à TV, mas imagino que se a pessoa possa dedicar 20 horas semanais para isso, tanto faz ver temporadas inteiras de House of Cards e OITNB assim que ficam disponíveis, fazer "maratonas" de séries tipo friends ou alocar essas mesmas 20 horas livres em quantos programas couberem. NENHUMA DAS MANEIRAS ANTERIORES MUDA O CÉREBRO DE NINGUÉM.

      Com relação à expectativa e ritmo em que a pessoa assiste determinada programação, depende somente da pessoa. Só terminei a primeira temporada de House of Cards quando a segunda estava se aproximando e não tenho nada contra quem viu tudo no primeiro dia.

      É isso aí.
      XOXO

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    3. Apesar de não concordar com tudo, aceito que esse argumento é uma forma de ver o que foi escrito pelo David. Ele realmente exagerou um pouco em suas conclusões, desconsiderando os serviços citados, além de DVDs e internet, e extrapolando um pouco a teoria da gratificação controlada. Mas convenhamos que ele é dos EUA, onde é normal as pessoas terem o rei na barriga e esquecerem que o resto do mundo exista independentemente.

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  9. Eu acho que varia de caso para caso. Existe o público que não se importa de ver naquele horário religioso e existe o público da maratona. Eu mesmo conheço gente que espera uma temporada fechar para assistir toda de uma vez. Não acho que o sistema do Netflix trouxe a tona um tema relevante (pra mim é mais um chamando a atenção), até porque quem quer ver um por semana vai continuar vendo um por semana. Agora os avidos consomem rápido e ainda assim depende do interesse. House of Cards e Hemlock Grove eu consumi em alguns dias. Orange is the new black tá parado no ep 04 há um bom tempo.

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  10. Gente, o pobre autor não tem autoestima, não tem vida social, não tem família e filhos. Se considera um rato, porque assiste lixo. Entretenimento não causa dependência, nem serve de recompensa para pessoas que tem uma vida normal, que andam na rua, trabalham, fazem esportes, comem, bebem e dormem. Pessoas dependentes ou viciadas em seriados, novelas, entre outros, precisam de um pouco daquelas coisinhas que citei anteriormente. Falou um gaúcho grosso de Porto Alegre!

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  11. Isso é muito bom para parar para pensar.
    No começo, para quem não está acostumado ou desenfrea a assistir (com um suposto "medo" de que pode acabar aquela mordomia a qualquer momento) ou assisti comedido (para aproveitar cada segundo do tempo que ele reservou só para aquilo).

    Eu achei muito legal esse tipo de lançamento, parece livro. A série está lá para ser assistida a qualquer momento, é você que decide quando, onde e quanto quer assistir. Se hoje você não pode, então assista amanhã; se de manhã não dá, então à noite; se tiver o dia todo, então vai o dia todo! Isso é liberdade! Poder fazer o que quiser dentro das possibilidades. Não é mais como ficar uma semana esperando pelo grande próximo episódio que foi uma bosta e acaba estragando o seu dia ou o resto da semana...
    Claro, como tudo, é preciso seleção e moderação. Mas, fazer as pessoas pensarem o que é melhor para elas é a melhor satisfação para uma sociedade, ainda mais a atual.

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  12. Eu sempre achei isso, porque depois que você assiste um episódio de uma série que gosta, é sempre bom você ficar no seu cantinho pensando no que ocorreu, e formar teorias do que vai acontecer, daí você vai conversar com outras pessoas ou na internet, não tem graça colocar tudo de uma vez só, acaba até com a forma de você conhecer novos amigos.

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  13. Ola, sempre achei que as emissoras de tv, tinham a vantagem, mas com a netflix, isso esta mudando. Alguém lembra como era, quando se perdia o episodio, você tinha que comprar o pacote todo ou recorria aos piratas. temos que dizer que Yamagi Shinji, esta totalmente correto.
    Pois você assiste quando desejar.
    Quem esta chateado com tudo isso, são as emissoras de tv, pois estão saindo da zona de conforto, estão deixando de ganhar muito dinheiro.
    Vai demorar um pouco até Netflix alcançar patamares astronômicos. mas chegará lá.

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