Search

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Mercenário", um bom drama francês na Netflix


Estreou ontem (04) na Netflix o drama "Mercenário" ("Mercenaire"), filme francês comprado pela Netflix no festival de Cannes. "Mercenário" é um bom filme para quem gosta de cinema independente, com uma temática incomum e interessante.

Apesar da história passar pelo rugby, não deixe de assistir se você não conhece o esporte. O diretor Sasha Wolff apresentou o filme na abertura do festival afirmando ironicamente que "Mercenário" "é só pra quem não dá a mínima pra rugby". E, realmente, o filme vai muito além do esporte.

(Contém alguns spoilers)

"Mercenário" conta a história de Soane, um wallisiano (habitante da Oceania francesa) que tenta a sorte na França jogando rugby. Ele é rejeitado por seu pai por sair de casa, e na Europa seu destino não melhora muito: Soane é desprezado pelo time que estava pronto para contratá-lo, ficando sem contrato e sem ter onde morar. Sem saber o que fazer, ele vai até a casa de um primo, que consegue uma vaga em um time pequeno que paga muito mal.

Pra piorar a situação, o recrutador de Soane o persegue, exigindo pagamento pela viagem que financiou até a França. Além disso, o jogador se envolve romanticamente com uma francesa e acaba tendo problemas por isso também.

A meio caminho do filme, acreditei que estava pronto o caminho para o desastre, assim como em "Divinas", outro filme francês de Cannes adquirido pela Netflix. A vida de Soane estava complicada demais, errada demais pra tudo dar certo. Mas o diretor Sasha Wolff surpreendeu ao encontrar uma saída alternativa, e apesar de haver algo de estranho no final, a solução faz sentido.

A figura paterna é muito importante na história. Logo nas primeiras cenas, o pai de Soane surra brutalmente o filho, em uma performance quase digna de "Paixão de Cristo". Com o tempo, percebe-se que não são só cicatrizes físicas que o pai deixou no protagonista, e de alguma forma ele precisa voltar e resolver a questão.

Outra chave importante da trama é o dinheiro, citado muitas e muitas vezes. Soane acredita que é preciso de dinheiro para ser livre e, nesse aspecto, tudo o que faz é por dinheiro e por liberdade. Por isso Soane é "o mercenário"; ele acredita que, nesse mundo, em que todos querem usá-lo e descartá-lo, a única linguagem possível é a do dinheiro. Não é como uma decisão própria, um desejo... é a forma que ele encontrou de resolver seus dramas. Mas, antes do fim, Soane percebe que o dinheiro não resolve todos os problemas.

"Mercenário" pode ser visto como um filme sobre crescimento, um ritual de passagem para um menino se tornar um homem. Soane cresce e tem que lidar com problemas enormes, revelando grandeza de caráter. Estranhamente o mote moral do filme vem da boca do vilão principal, em uma história em que quase todos são vilões.

A performance do ator não profissional Toki Pilioko é algo de admirável, sofrendo estoica e profundamente pelo filme todo. É impressionante ver alguém dançando o haka com tanto vigor, ainda mais no contexto dado na história. O pai de Soane, Leone, me pareceu um tanto caricato em sua atuação, mas posso estar sendo implicante por não conhecer a cultura wallisiana. Quando não conhecemos, julgamos mal. Conhecendo o Brasil, sei que "Tropa de Elite" tem muito mais de verdade do que um canadense poderia acreditar.

"Mercenário" é um item a mais na longa lista de filmes que eu só assisti porque estão facilmente disponíveis no catálogo do serviço. E apesar de ter seus defeitos, é bom filme, uma grata surpresa a que procura algo diferente pra ver na Netflix.

André Taffarello

2 comentários :

  1. Vale a pena assistir, acho que não gostei muito do final, deveria mostrar mais sobre o mercenário. Parece que foi o 1° filme que ele atuou.

    ResponderExcluir