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sábado, 20 de maio de 2017

Opinião: Cannes tem medo da Netflix


Durante a semana, foi divulgada a notícia de que a Netflix não foi bem recebida no festival de Cannes. Seu longa metragem foi vaiado no início da projeção e Pedro Almodóvar, o responsável pelo festival deste ano, afirmou que os "filmes têm que ser apreciados na tela grande" e "as regras estabelecidas de distribuição têm que ser respeitadas". Houve alguma polêmica e até Will Smith defendeu a Netflix.

Cannes chegou a criar uma nova regra destinada a deliberadamente impedir a entrada da Netflix no festival do ano que vem, obrigando todos os filmes participantes a serem necessariamente exibidos nos cinemas. Por trás da notícia há a longa disputa da Netflix com a indústria tradicional e os personagens bem estabelecidos que não gostam de mudanças no status quo. Se Almodóvar fosse um diretor iniciante procurando seu espaço, talvez teria uma opinião mais lisonjeira sobre os serviços de streaming.

É indiscutível que a Netflix alcança um público enorme, com uma distribuição mundial a alguns cliques de mouse, um feito inalcançável para os meios de distribuição tradicionais. Além disso, o serviço atende a um público carente de filmes alternativos que jamais passariam nos cinemas.

O pessoal de Cannes está acostumado a assistir a produções iranianas em salas privê, mas aqui no interior paulista nem "A Grande Beleza", filme italiano, passou pelos cinemas. Para a maioria, a tela grande nunca foi uma alternativa fora do circuito hollywoodiano. Simplesmente não há acesso a não ser por meios ilegais. Por isso vejo com desconfiança a afirmação de Almodóvar: "Enquanto eu seguir vivo, vou defender a experiência que muitos jovens não tiveram que é a sensação de poder assistir um filme em tela grande." . Será que ele defende a experiência (que me foi negada a vida toda), o hábito arraigado ou a indústria de que faz parte?

Cinema para quem, afinal? A proporção de pessoas que assiste a filmes de festival no cinema é uma parcela ridiculamente pequena da população. E ela tende a diminuir com cada vez menos cinemas fora de shopping centers.

A Netflix provê acesso a uma infinidade de filmes e séries de que você nem teria ouvido falar se não estivesse no catálogo. Ficando entre as produções originas, considerem o fantástico feito de "Making a Murderer", uma série documental (!) que discute erros no sistema prisional (!!) e que, ao que tudo indica, foi um dos títulos mais assistidos na Netflix (!!!). Se não fosse a Netflix, não teríamos visto "Making a Murderer", nem "Divinas", nem "Mercenário".

O que estamos assistindo é a revolução do Napster para a indústria cinematográfica, sem a ilegalidade. A indústria se preocupa porque a Netflix é um ator novo, fortíssimo, e incontrolável como um touro esporado. Ela não vai respeitar as ordens e regras de lançamento da indústria tradicional exatamente porque é esse seu maior diferencial competitivo: você pode ver um filme na sua casa lançado simultaneamente no mundo inteiro. Que espectador vai abrir mão disso? "E o que vamos fazer com os cinemas?", pergunta a indústria. Simples, continuem passando "Velozes e Furiosos XXI" em dezessete salas.

A julgar pelas notícias dos últimos anos, Cannes precisa mais da Netflix que a Netflix de Cannes. A quantidade de filmes adquiridos pelo serviço de streaming em festivais de cinema é enorme. As produções próprias contam com Will Smith, Brad Pitt, Angelina Jolie. E os números da empresa devem aumentar: ontem foi divulgada uma reportagem afirmando que a empresa tem a meta de produzir entre 40 e 50 filmes por ano, continuamente. Segura essa, Almodóvar.

Fontes: Deadline, Omelete

André Taffarello

7 comentários :

  1. Cineastas do cinema mudo criticaram muito quando os filmes foram sonorizados. A história se repete.

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  2. "É ACONSELHÁVEL OS ORGANIZADORES DO FESTIVAL E OS SERVIÇOS DE STREAMING TEREM MAIS FLEXIBILIDADE E SERENIDADE NESTA SITUAÇÃO. O QUE ACONTECE SE, NESTES DIAS, OKJA OU THE MEYEROWITZ STORIES SE REVELAREM SÉRIOS CANDIDATOS À PALMA DE OURO? ALMODÓVAR TERIA UM PROBLEMA. POIS O QUE DEVE SER DECISIVO PARA UM FESTIVAL É A QUALIDADE DE UM FILME.
    ()
    POR OUTRO LADO, PARECE QUE TAMBÉM PARA A NETFLIX SE TRATA DE UMA MEDIÇÃO DE FORÇAS. AFINAL, NÃO É VERDADE QUE OKJA VÁ FICAR TOTALMENTE FORA DAS SALAS DE EXIBIÇÃO - VEJA-SE O CASO DA COREIA DO SUL.
    ()
    CALMA! - DÁ VONTADE DE APELAR A TODOS OS ENVOLVIDOS - NÃO SE AGARREM A DOGMAS. A ARTE CINEMATOGRÁFICA É QUEM PODE SAIR PERDENDO."
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    Essa é uma opinião razoável.
    Tirada do texto do link abaixo.
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    A Netflix esta ficando com uma imagem arrogante e muito negativa. Ceder um pouco e cobrar idem das autoridades francesas para resolver a questão é muito melhor que continuar uma guerra em que todos perdem.
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    Brigar com a indústria cinematográfica é ruim. Muitos diretores, autores e ate atores, podem não aceitar mais negociações com a Netflix. Cria-se um rancor desnecessário que pode criar uma barreira maior do que pode imaginar.

    Concessão de ambas as partes fariam mais bem que mal ate para os assinantes. Nesse caso a Amazon prime esta melhor que a Netflix..

    https://m.facebook.com/groups/443248145830779?view=permalink&id=793433457478911

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  3. E nos EUA também terá cinemas exibindo os dois filmes..
    A questão numero um é a janela gigante francesa. Eu defendo uma janela de 30/45 dias.. Ninguém fica sem espaço..

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  4. Se a nova regra do festival for realmente ter o filme exibido nos cinemas, a Netflix vai lá e cria seu próprio cinema com salas em vários países, exclusivamente para seus assinantes :P

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  5. Acho que a Netflix está sendo muito arrogante ultimamente. Não digo apenas por esse caso. Cannes não precisa mais da Netflix, do ela precisa de Cannes como foi dito aqui. Apesar de a Netflix ser forte, ela jamais será forte que o mundo cinematográfico. Se os grandes Studios, cinemas e atores, começarem a boicotar a Netflix, ela estará com sérios problemas. Atores podem facilmente boicotar a Netflix, se assim os Studios fizerem, porque nenhum deles vai querer ficar com a imagem queimada na indústria. Acho melhor a Netflix baixar a bola. Até porque sabemos que esse tipo de plataforma, irá se expandir cada vez mais, e quando a Netflix não for mais a única no mundo, ela estará com sérios problemas.

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  6. A netflix esta precisando de uma concorrente, ta com muita moral desse monopolio.

    Antigamente se pelava de medo de tirar qualquer conteúdo do catalogo,
    hoje faz a torto e a direito e "compensa" com um menor número de originais.

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    1. Eu acho que isso se deve à pressão da indústria sobre a Netflix. O preço pra licenciar os títulos devem estar subindo, pq as produtoras enxergam a Netflix como um gigante perigoso. Por causa disso vale a pena se concentrar em produções próprias, do ponto de vista mercadológico.

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